sábado, 9 de março de 2013

Gentilmente, com Graça

This is a portuguese translation of the original article published in The Starry Cave, entitled Gently with Grace. If you are an english reader, please click here to visit the author's blog and read the original text.


Gentilmente, com Graça

“Se você não sabe qual caminho tomar, tome o caminho da gentileza”.

Ifasotito Osowale Agbefayelele

Gentilmente devemos abordar a jornada humana para que possamos andar graciosamente no mundo. Ser gentil implica pelo vernáculo ser amável, mas mesmo que amabilidade seja uma coisa boa ser gentil encerra outras virtudes. A gentileza fala da  liberdade, de se estar livre do ódio e da violência. A palavra gentil é originada do latim gentilis, que significa união a uma família nobre. O mesmo termo — ‘gentil’ — foi então utilizado como um termo pejorativo para cidadãos não-cristãos nas comunidades cristãs européias e  foi assimilado muitas vezes com o termo ‘pagão’. A partir do século XII ele foi utilizado como um adjetivo para descrever alguém de boa linhagem, uma pessoa nobre de maneiras finas e temperamento calmo, mas também de não-cristãos habitantes das regiões rurais, as pessoas de velhos costumes. No século XVII este termo foi largamente utilizado como uma referência a homens de temperamento gentil.

A idéia de um cavalheiro atualmente tem a virtude da honra, de ser lento à raiva, e de possuir alguma forma de refinamento que é experientada como uma presença agradável. Ser gentil significa ser cortês e verdadeiro. Uma pessoa gentil é alguém que possuí claridade de mente e alma, mas não permite que isso torne a língua estúpida em relutância covarde quando a clareza deve ser dita…

Ser gentil não só significa estar em conformidade com tudo — trata-se também de estabelecer limites para empenhar-se em não ofender — pois aquele que é gentil sempre terá uma sensibilidade de domínio e colocação, uma segurança do Self e identidade. Meu veneno pode ser seu remédio e seu amigo pode ser meu inimigo. A pessoa gentil perceberá estas finas linhas, pois o rude e o bruto são insensíveis e eles se envenenarão  em inimizade, a inimizade com o mundo e com eles próprios.

O mundo é um mercado e igualmente um jardim. É um lugar onde encontramos a fortuna e estrelas auspiciosas. É um lugar onde podemos nos afundar em beleza e perceber toda nossa abundância. Uma pessoa gentil sempre terá esta experiência do mundo como um lugar de beleza e transação. A beleza sempre servirá como uma lembrança da bondade inerente no mundo e na alma. Beleza é um estado onde ainda podemos contar nossas bênçãos e encontrar reorientação. Pois quando estamos no coração da beleza estamos no coração da Verdade e nestes momentos tocamos nossa essência divina. Estes momentos são importantes; pois é aqui no belo núcleo da verdade que encontramos o néctar que nos permite abordar o mundo como um mercado de transação no espírito de interesse.

Abordar o mundo com interesse significa abordar o mundo como possibilidades e situações sem julgamento. Quando julgamos uma situação causada por nós mesmos ou pelos outros, como desagradável,  inútil ou  fútil — imediatamente erigimos portas e fronteiras, limitações e restrições sobre nós mesmos. Confirmamos  a determinadas categorias e etiquetas, às silenciosas regras e normas sociais às quais nossas almas se rebelam contra. Ao mesmo tempo, falhamos em não ver a grandiosa paisagem, como tudo faz sentido se nosso horizonte é suficientemente grande.

O gentil vive em rios de transformação, firmemente ancorado em alguns pilares seguros de definição, pois o gentil conhece os estados fluídos do mundo e do self e a cada vez que ele ou ela se perde nesta experiência, o Self é enriquecido e nisto um conhecimento maior é encontrado. Perca-se para se encontrar. Perca-se na dança, no amor, no prazer, no interesse... acumulação será parte sua, pois o espelho da alma cresce mais claro na lembrança constante de que a Morte encontra a todos nós...

A pessoa gentil terá uma visão clara de suas estrelas e daimons, do compasso que roda e gira, mas o gentil sempre saberá/conhecerá seu norte e prego [N.T.: Polaris]. Esta segurança, esta âncora estelar é o pólo da paz, livre de confusão, intriga e tormento. É o olho no tornado, para onde olhamos para nós mesmos. É o memento mori que nos impulsiona para a gentileza e interesse na vida. É Bawon Samedi dizendo-lhe que você já está morto, ainda que não enterrado. Então, sê fiel à tua estrela, sê gentil e mergulha na vida da cabeça aos pés, sem discriminação!

Se você é uma pessoa gentil, isso significa que você busca abordar o mundo de forma que afirme sua sorte ao aceitar a sorte dos outros. Desta forma, você buscará entender a forma desta teia de transação e você entrará nela gentilmente. Você não será seduzido por aqueles que abordam o mundo com glutonaria e tomam o que pertence aos outros, e buscam ser alguém que eles não são. Estas ocorrências servirão apenas como marcas do caminho e sinais. E é o espírito de transação e transformação em jogo sem julgamento envolvido. Desta forma podemos perseguir nossa própria  boa fortuna, e então podemos caminhar pelo mundo, seja ele um jardim ou um mercado, graciosamente... como reis e rainhas — ou como fantoches e pedintes...

Como o Ifà odù mèjí Èjì Ogbè diz:

K’á má fi kánjúkánjú j’ayé
K’á má fi wàràwàrà n’okùn orò
Ohun a bá fi s’àgbá
K’á má fi sè’bínúBí a bá dé’bi t’ó tútù
K’´s simi-simi
K’á wò’wajú ojó lo tìtì
K’á tún bò wà r’èhin òràn wò
Nítorí àti sùn ara eni ni


Na tradução de Karenga:

Não  nos envolvamos no mundo apressadamente
Não nos agarremos à corda da riqueza
Impacientemente
Aquilo que deve ser tratado com julgamento maduro
Não lidemos com isso em um estado de
Incontrolada paixão
Quando chegamos em um local fresco
Descansemos completamente
Vamos dar  atenção contínua ao futuro
Vamos dar consideração profunda para a
Consequência das coisas
E isso por causa de nossa eventual morte.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Mel e Devastação

This is a portuguese translation of the original article published in The Starry Cave, entitled Honey and Devastation. If you are an english reader, please click here to visit the author's blog and read the original text.


Mel e Devastação

Ifá é uma fé que reverencia o orvalho matutino ― pois o orvalho é suave e invisível, e em modos secretos fertiliza a ramaria com os elixires da noite, pois é na noite que Onile (o espírito da Terra) busca seu rejuvenescimento e produz todas as possibilidades sob os raios do Sol.

Ifá vê o mundo como um mercado, um lugar onde ocorrem transações, onde todas as possibilidades se reúnem em oportunidades tomadas ou perdidas. O mercado é composto das 256 vibrações cósmicas chamadas de odu ― ou mais corretamente, omo odu ― que são fractais de luz manifestas que se encontram com a escuridão. Estas vibrações dão identidade e substância a todas as coisas que são e podem, eventualmente, tornar-se.

Ifá fala da beleza da diversidade e a possibilidade de encontros harmoniosos ― mas nisto também há a possibilidade da contenda, da guerra e dos mal entendidos. Uma contenda ocorre quando uma substância experimenta uma colisão com outra ― nisso repousa uma falha em ver a paisagem e o horizonte. Quando vemos paisagem e horizonte, conseguimos enxergar onde as peças se encaixam ― e então uma união de harmonia pode acontecer.

Nossa alma é como uma passarada, aninhando, defendendo, cortejando... o combustível da alma é composto de paixões e sangue ardente, e como os pássaros, agimos e reagimos com paixão num espaço limitado que definimos como fora do eu/self e seus desdobramentos. Os pássaros de todas as paixões podem trazer êxtase, alegria, zombaria, contenda, inimizade e confusão ― mas também é aqui que harmonia e entendimento são sentidos primeiro e então abraçados por ori, a nossa consciência plena.

Ifá é uma fé que está ancorada no iwá pélé, bom caráter — bom caráter na visão de Ifá está relacionado ao ser pacífico, ao manter o otimismo e a felicidade na crença de que todos nós nascemos bons e abençoados — e que podemos permanecer assim.

No entanto, bom caráter é um trabalho diário no próprio self, pois abundam as tentações para se perder a calma e disposição positiva quando somos confrontados com a raiva, a inveja, orgulho e assim por diante — obstáculos no caminho do destino. Estes obstáculos são ora instigados por nós mesmos, ora por outras pessoas ao nosso redor que não compreenderam seus verdadeiros centros, ou como estabelecê-los. Elas se transformam em formigas que declaram guerras sobre todas as coisas que elas percebem como obstáculos em seus caminhos — e a devastação de tudo é doce.

Ifá constantemente utiliza os termos ‘orvalho’ e ‘mel’ para descrever a natureza de possuir um bom caráter, porém Ifá também é consciente da necessidade de proteger a sua própria boa fortuna e bom caráter. Há um odu que fala do tempo em que os habitantes do céu e os humanos viviam em paz, contudo, os impulsos e paixões do possuir infestaram tanto a humanidade que os habitantes do céu que viviam no espírito de Ifá sentiram a necessidade de se protegerem contra a agressão. O odu Ìretè’sá diz o seguinte:

Enití r’ótè sá kò s’ojo
Oyin se tán, fáfárá dé’lé
Eerùn se tán, f’àgàn dé’lé
A dífá aráyé a bu fún ará òrun
Nígbàtí wón ´ngbógun si ara won


Na bela tradução de Karenga:

Aquele que se guarda contra a traição não é
Excessivamente temeroso
Afinal, quando as abelhas cessam [o trabalho],
Elas deixam um favo de mel na colméia,
Mas quando as formigas cessam,
Elas deixam devastação.
Este foi o ensinamento de Ifá para o povo da
Terra e os habitantes do céu
Quando eles estavam em guerra entre si

Ifá sublinha neste odu que precisamos estar atentos às paixões que nos motivam e também como nossa natureza pode ser colocada em uso. Ifá também fala sobre nossa conduta e aquilo que deixamos para trás, ele fala sobre como formigas podem sitiar uma colméia e exauri-la inteiramente para saciar suas próprias necessidades com a desculpa de que isto estaria em sua própria natureza. Mas Ifá diz que não importa qual  seja a mistura de luz e escuridão  na essência de cada um e de todos, ainda podemos caminhar na terra como o orvalho embebido em mel e fazer o nosso destino. A formiga é simplesmente um símbolo para alguém dominado pela matéria e infundido com fogo que declara guerra sobre tudo que provoca seu erro — e para tais pessoas, como a formiga, o mel é certamente o pior tipo de inimigo.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Transformar a Batalha em Dança

This is a portuguese translation of the original article published in The Starry Cave, entitled To Turn a Battle into Dance. If you are an english reader, please click here to visit the author's blog and read the original text.



Transformar a Batalha em Dança

Provocação é algo que todos nós experimentamos, seja por acaso ou deliberadamente. Uma palavra impensada dita num momento inoportuno ou a ação precipitada que damos ao mundo em um dia ruim pode convidar o conflito. Às vezes as pessoas provocam algum tipo de reação porque se sentem mal com elas mesmas ou porque sofrem de inveja. Em outros momentos, é o medir de força, ou buscam vencer uma discussão para que se sintam melhor com elas mesma ou com a filosofia que tomam como bússola em suas vidas. Não há limite para o que pode nos provocar e, por isso, em vez de acolher a energia negativa de uma provocação, é melhor dar um passo para trás e ver o que podemos fazer com a provocação. Para Oscar Wilde a resposta para uma provocação era pagá-la com bondade, pois nada provocaria mais do que isso.


Ifá põe iwa rere no centro da fortuna — um caráter alegre, calmo e próspero. Se é isso o que buscamos manter, qualquer provocação será somente uma dança, e não uma batalha. No odu Ogùndábàrà encontramos uma história sobre Obara, um jovem poder vigoroso associado com um Sango jovem e imaturo (o espírito do trovão e fogo) que desafiou OgunOgun é o patriarca dos caçadores, um poder primordial que deu origem as estradas, ferreiros, e foi fundamental na criação da humanidade. Podemos dizer que Ogun é a própria forja, enquanto Obara representa apenas o fogo — um produto mais jovem da forja. Nesta história Obara aparentemente provoca Ogun ao ponto de que ele está determinado a matar Obara, mas ao invés disso ele faz ebo/sacrifício. Neste caso, seu sacrifício foi uma mudança de atitude na qual ele percebe que poderia entreter a provocação de Obara, mas como uma dança e não uma batalha. O verso diz o que se segue:
Rìtìrìtì ni ojú ijó
Rìtìrìtì ni ojú ìja
A dífá fún Ògún
Nlo ba Òbàrà já ìjà kan
Wòn nì Ògún á dáa
Sùgbón ki Ògún wá sebo
Kí Òbàrà má baà kú síi lórùn
Ó gbó ó Ru
Wón ní adie kìí ba adìe já ki ó kú
Agbòn ìràwé kìí wúwo
Kí ó d’éru pa’ni

Na tradução de Karenga: 

Tumultuoso é o local da dança
Tumultuoso é o local da batalha
Este foi o ensinamento de Ifá para Ogun
Quando este estava indo se engajar na batalha com Obara
Eles disseram que Ogun atuaria bem
Mas que Ogun deveria fazer sacrifício
Para que Obara não fosse morto na
Peleja
Ele [Ogun] ouviu e sacrificou
Eles disseram que um pássaro não deveria lutar
Com outro pássaro até a morte
E uma cesta de folhas secas não é forte o suficiente,
Que seu conteúdo deva matar alguém

Esta é uma boa atitude para se manter quando confrontado com provocações em geral, pois se vemos a batalha como uma dança onde ‘golpeamos’ nosso provocador com ‘folhas secas’, podemos ensinar uma lição — e ganhar uma lição, embora também devamos ter em mente que a dança - dentre o povo iorubano - é vista como [composta de] movimentos cósmicos. A dança pode interpretar os movimentos das estrelas, ela pode levar a vida desorganizada de volta à harmonia e pode ser utilizada como divinação ou como um veículo para o diagnóstico de doenças. Em última análise, a dança tem o poder de curar e a dança de cura é realizada por pessoas que possuem iwa rere — um caráter jovial e calmo. Foi com esta atitude que Ogun tomou o desafio de Obara, sabendo que ele era mais velho, mais sábio e mais forte — ainda assim, estamos todos juntos na dança da vida, neste mercado que é a nossa jornada. Ogun entendeu isso e abraçou o desafio com interesse e alegria e não como uma batalha. Certamente esta é uma atitude mais digna quando confrontados com provocação — na verdade, esta atitude tem em si um fio socrático e nesta existem mais metas para a ampliação de horizontes de compreensão do que a provação de um ponto ou a definição de quem está certo e quem está errado. A batalha que se transforma em uma dança de palavras e opiniões estimulando e recompensando mutuamente — e nisso a dança cósmica de alegria e harmonia é replicada. Ase O!

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Bruxaria Tradicional

Todos nós somos dotados com boas faculdades de entendimento e percepção. Alguns dispõem de uma sensibilidade mais aguçada, mas para todos a mudança e a percepção desta é algo nitidamente possível.

Pela observação dos fatos e dos acontecimentos, é possível compreender que tudo, após iniciar ou nascer, desenvolver-se e contribuir para algo enquanto experiência no mundo, chega ao fim, mesmo que tal fim seja apenas um recomeço. E assim as portas para o novo são abertas, e para as possibilidades, e oportunidades...

Chegamos ao final de mais um ano. Celebramos no mesmo momento um rito que envolve o pranto e a alegria, pois num mesmo instante enterramos um ano velho e todos os acontecimentos dolorosos ocorridos nele e aguardamos a vinda de um novo ano, a chegada da esperança de dias melhores.

No entanto, sempre guardamos algo de recordação daquilo que já se foi, sejam os nossos ancestrais, sejam os anos que já passaram. As lições, o aprendizado, as conquistas, os amigos, Irmãos & Irmãs, os passos do Caminho. O passado já passou, mas as lembranças sempre levamos.

Agradecemos a todos aqueles que nos acompanharam durante o ano de 2012. Aos nossos leitores, aos escritores, aos participantes e aos mantenedores da rede Bruxaria Tradicional.

Desejamos a todos vocês um Ano Novo próspero. Que as possibilidades possam permear a vida de todos e que o entendimento se faça presente sempre no Caminho de cada peregrino e peregrina, com as bençãos e maldições.

Sempre!

Bruxaria Tradicional

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Rosh ha Sitan e as transições de Lilith





Lilith, originalmente um espírito dos ventos hostis na Penísula Arábica, se tornou uma devoradora de crianças, um súcubo e finalmente uma Rainha dos vampiros. A Primeira mulher de Adão, segundo o ben Sira e uma rainha demoníaca e  hostil, de acordo com o Zohar.

Lilith era um espírito estrangeiro e intruso; encantamentos eram feitos para afastá-la - e anjos eram enviados para pôr fim na procriação de seus lilins. Os mensageiros angelicais tiveram que fazer uma trégua e um acordo – ela estava aqui para ficar. Ela surge a partir de um espírito fadado a morrer, como um dinossauro – no entanto seu legado e proeminência ainda são espalhados por todo o mundo com o desenvolvimento da história. Quanto mais derramamento de sangue  e devastação encontramos, mais encontramos Lilith.

Lilith ascende à proeminência no mundo a partir das sombras das tempestades e dos maus agouros. Ao longo do tempo ela foi associada à  Lua, com Vênus, à mãe dos Djinn e a mãe dos Sidhe (‘fadas’). Ela foi tratada como um súcubo – ou a mãe deles, como um Espectro e uma Feiticeira. Da Suméria e Caldéia ela esticou suas asas sobre Edom, Síria, Arábia e Europa. Blavatsky a viu como uma sombra éterea primordial da sexualidade – e é a partir de sua teosofia que encontramos as idéias modernas que a enxergam como um ícone da mulher reprimida que busca o domínio.

No livro de necromancia intitulado ‘Forbidden Rites’ (Ritos Proibidos, Penn State Uni Press., 1997) Richard Kieckhefer fornece instruções para a criação de um espelho de Lylet ou Lilith. Este espelho deve ser confeccionado  nos dias de Saturno, nas horas de Marte (i.e. o maléfico com maléfico). O gênio daemônico, contudo, é chamado Floron. Floron deve er uma referência a um espírito do verde, sendo floral pelo o nome e, portanto, uma referência ao Jardim do Éden pode ser detectada.

No Lemegeton temos dois candidatos que podem estar lingüisticamente relacionados e, assim, pode ser que Floron seja na verdade ou Flauros (Havres) e/ou Focalor, ambos duques sob os raios de Vênus. Flauros é um duque formidável que surge na forma de um homem-leopardo, e nos diz muito sobre a hoste caída e as condições do mundo antes da queda. Ele é um duque impetuoso e ígneo e pode ser utilizado em trabalhos de vingança. Ele recebe o valor cabalístico de 212, ‘esplendor’. Focalor aparece como um grifo, uma criatura com o corpo de leão e asas de águia. Ele é um espírito do vento que é ligado aos oceanos e mares. Seu valor cabalístico é 342, que significa ‘caminho’. Juntos eles resultam em 554 que é Zorea Zara, ‘carregar a semente’ – conseqüentemente, algo fértil acontece aqui, onde o caminho do esplendor se abre para a semente. Diz-se também que foi prometido a Focalor entrar novamente no céu após mil anos de servidão, – mas no final a entrada foi negada.

Então, o próprio espelho é um produto dos duques do Lemegeton, um espelho de Vênus. Porém, este espelho de Vênus deve ser produzido quando os dois maléficos, Marte e Saturno estão fortes – ou para trabalhos benevolentes quando Júpiter e Saturno são encontrados em bons aspectos entre si. Além disso, Flauros é um demônio de Capricórnio enquanto Focalor é um demônio de Touro – e Touro é o signo que detém a estrela Algol na constelação de Perseu. Assim como Medusa procurou refúgio em uma caverna, Lilith procurou refúgio numa caverna no mar vermelho.

Encontramos sua mais recente interpretação na série ‘True Blood’ da HBO. Aqui Lilith surge de poças de sangue causados pela intoxicação de seus lilins que entram em uma sede de sangue frenética – e ela mesma traz dispersão e devastação em uma estranha sedução em seus filhos. Talvez esta visão seja a mais precisa na percepção de sua natureza. Trata-se de dominação, de êxtase, de frustração. Lilith é sexual, mas ela está muito mais relacionada com a frustração da liberação tardia da sexualidade, atípica da tradição vama marg da prática tântrica kaula do que um com um florescente jardim de delícias sexuais. Assim como a lua negra astrológica – a ela associada – é um ponto matemático no espaço, ela também é um estado mental semelhante ao que é conhecido no BSDM como ‘subestado’.

Ela não é um poder restrito à ordem estabelecida pelos homens e, portanto, ela sempre escapa de qualquer rótulo e qualquer tentativa de colocá-la em uma caixa racional nítida de clareza e identidade. No momento em que isso acontece, ela se liberta e declara que ela é diferente disso.

Como o mundo neo-pagão está crescendo, a veneração de Lilith como um daimon da sexualidade e poderes femininos também tem visto um crescimento. Apesar de nunca ter sido um daimon da fertilidade ou da maternidade, ela é cada vez mais tratada como tal. Ela é vista como uma salvadora de mulheres reprimidas, e talvez nisto ela tenha uma função benevolente. Mas isto não é ela; ela é muito mais…

Lilith passou por uma transição nos dias modernos que é muito semelhante ao que encontramos na astrologia, considerando a natureza da oitava casa e o signo de Escorpião. A astrologia moderna vê a casa 8 regida por Escorpião e vê Escorpião como o impulso sexual primordial. A astrologia clássica vê o signo de Escorpião regido por Marte,  um signo escuro e úmido que é intuitivo e sedento pela morte. Sua sexualidade está em conformidade com instintos primordiais de sobrevivência e procriação, como ocorre na maioria dos anfíbios. A oitava casa é em si um local onde morte – e conseqüentemente heranças são lidas e previstas. Na oitava casa Saturno encontra seu júbilo e é aqui que todo maléfico se une na luxúria anfíbia dos crocodilos, víboras e escorpiões…

Então, certamente, Lilith é um daimon sexual, mas seu luxúria erótica é o da noite e das sombras. Na verdade, ela é a erva venenosa  e a cabeça da Medusa – ela está além dos planetas, ela é Algol – e aqui na terra, tais questões estelares se manifestam como  terror. Ela não  gentil, ela era a esposa de Samael, o veneno de Deus, e era a árvore proibida, o próprio contrapeso. Ela era a mãe dos amaldiçoados, aqueles que foram chamados de bruxos e feiticeiros por aqueles que não conseguiram entendê-La, nem aos seus filhos.


Ela é verdadeira  e profundamente ligada com a estrela Algol ou al-ghûl – nomeada assim dada a classe de djinns de mesmo nome. Tal estrela é encontrada no heléboro e nos diamantes. É distintivamente saturnina, mas exaltada quando Marte está ascendendo. O impulso de Vênus está relacionado a graça feminina, ao velar dos diamantes no heléboro para deflagrar vingança ou caos...