sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A Noite da Alteridade

“Defina-me – e eu lhe escaparei...”
- Liber Combusta

Não importa o quanto tentamos definir o que é “bruxaria” – ela ainda preservará seu mistério – e acredito que esta é a forma que reconhecemos a presença da estirpe tradicional que constitui as artes e ofícios da bruxaria.

No centro do que define uma bruxa, encontramos a marca e o sangue. Não importa o continente ao qual nos voltamos, descobrimos que o ícone da bruxa está mergulhado em alteridade. Ela, ou ele, é aquilo que escapa das definições, e através desta pobreza lingüística que a tendência ocidental seja a de pintar a bruxa com pinceladas diabólicas e a tinta das noites esquecidas, e de fato, a bruxa é uma filha da noite - pois é na noite, sob a regência e sopro da Lua que o sangue antigo é vivificado.

A idéia de que a bruxa ou feiticeira seja alguém que não é deste mundo, algo desregrado, indomado e potencialmente destrutivo é encontrado da Noruega à África. Podemos exemplificar isso pela prática do seiðr, uma arte praticada pela Volva - e comumente entendida como um conhecimento possuído pela vanir Freya. Na verdade isso não é verdadeiro, Freya foi ensinada por Hyrrokin – ou Heid – quem a iniciou nestas artes - e, através disso, vivificou o sangue feiticeiro de Freya. O sangue aqui em questão aqui é o de Ymir, o primeiro gigante que foi abatido e transformado em criação. A “bruxa” ou fjølkynnig nasceu de seu suor e sangue - uma raça pré-titânica anterior aos deuses dos homens mortais. Da mesma forma, no Japão, China, assim como Rússia e Europa Oriental, a bruxa e o feiticeiro são constantemente associados com Dragões e estrelas cadentes – algo estranho e fora da ordem solar. Da mesma forma encontramos as “bruxas” na África Ocidental descritas no corpo de ensinamentos de Ifá, ao entrarem no mundo através do engano e trapaça - mas que prosseguem definindo sua função no mundo - que é ligada à noite, à calamidade, mistério e os pássaros da noite...

Em todas essas culturas o vôo noturno é um tema comum, seja para resgatar colheitas danificadas, seja para curar ou prejudicar a sociedade. O vôo noturno é possível por causa da estirpe especial da bruxa – um legado atribuído por muitos ao Senhor Caim e a hoste de anjos caídos que definem a bruxa para além da ordem cívica. Por conta disso, a “bruxa” sempre perceberá o mundo de forma diferente, porque a bruxaria é uma interação dinâmica vívida com os espíritos que habitam o mundo, para bem e para o mal. Isto desafia a ordem solar e qualquer tentativa ordinária de tornar o volátil algo fixo. A Arte das Bruxas se rebela frente ao estático, tal como os ensaios desconectados do folclore e da reconstituição de costumes pagãos. Bruxaria, no sentido tradicional, é um dragão volátil voando através da noite prateada. É aquele “outro” que é visto no canto do olho e o abraço noturno de toda a alteridade que chama o sangue a ser vivificado.

Nicholaj de Mattos Frisvold
Do original 

The Night of Otherness

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A Bruxaria Tradicional e o Trabalho com os Demônios

“Uma vez que abrimos os olhos a esta outra dimensão, quando de fato enfrentamos o desafio e podemos compreender o quão real ela é, podemos nos valer do livre-arbítrio e fecharmos os olhos novamente, ou nos preenchermos do velado poder do ‘Espírito Santo’ para nos preparar para o próximo ciclo. O ‘Espírito Santo’ é o poder que escapa nas rachaduras da abóbada celeste, que dá sua atenção somente àqueles de verdadeiro potencial espiritual, dentro do que os peregrinos chamam de Basílica da Santidade Negra. Aqui está o ponto onde se separa o Santo do Mundano, pois este processo é o do despojamento último, da nudez total de todos os valores morais agregados ao ser. Só assim somos capazes de descobrirmos a biografia dos demônios e consequentemente, os nossos”.

O texto A Bruxaria Tradicional e o Trabalho com os Demônios, trata de questões que em alguns momentos podem passar despercebidas. No início do ensaio, Qelimath fala sobre como a verdade é percebida individualmente, e que durante o trilhar do Caminho, a cada novo passo, é oferecido ao peregrino a capacidade de perceber a mudança, seja dessa verdade individual, seja da forma como ela é percebida: A realidade muda de acordo com o que se experimenta e só através da disposição de uma experimentação mais ampla se é capaz de alcançar uma fração maior da sabedoria.

É mencionado novamente a Encruzilhada, o encontro de dois caminhos, onde o peregrino fará escolhas: Tal escolha exigirá bravura em um nível raramente experimentado anteriormente: a saída da zona de conforto para um turbilhão de experiências que irão muitas vezes nos tirar todo o chão. [...] Aqui cabe adicionar que o trabalho deste nível é destinado aos fortes de espírito, àqueles que não se deixam abater por seus demônios traduzidos em neuroses e paranóias. A meta é encontrar o ponto onde negação e afirmação se alinha no fortalecimento do ser. Não é um caminho para muitos, mas um dos caminhos.


Boa leitura!


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O Processo de formação da Bruxaria Tradicional no Nordeste Italiano

Neste fascinante ensaio, dividido em três partes, Mazarol Rosmarin - um praticante hereditário de Bruxaria Tradicional do Nordeste da Itália (Stregoneria) nos fala sobre todo o processo de formação da bruxaria naquela região.

...A tradição popular por si, também chamada de catolicismo popular pelos atuais teólogos, é uma mescla de catolicismo com tradições folclóricas, numa espécie de animismo, onde santos e espíritos pagãos se tornaram a mesma entidade para o povo, discordando da visão eclesial e dos antigos pagãos, nascendo algo novo, que demonstra a fluidez e dinamismo da cultura. Assim, figuras veneradas a três mil anos nos alpes italianos, são ainda hoje veneradas, mas na forma de santos e demônios, ou seja, o antigo culto se adaptou à nova realidade, criando uma micro cultura, dentro da cultura dominante, e por isso não podendo ser totalmente independente dela. Esse é o processo de inculturação ao qual negros, indígenas e judeus passaram mais recentemente...



terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Lobo Ferreiro – Parte 1

Do martelo à bigorna, do fole ao fogo, a força mágica que o Ferreiro carrega com seu ofício na forja vem permitir mais que uma simples aparência criadora.


Como é notório, dos ofícios ligados à transformação dos metais, o de ferreiro é o mais significativo quanto à importância e a ambivalência dos conteúdos que implica, e é aqui o ponto "x", da alquimia da bruxa. 

O martelo, o fole, a bigorna, revelam-se como seres animados e arrebatadores. Supõe-se que podem operar por sua própria força mágico-religiosa, até mesmo sem ajuda do ferreiro e este por sua vez deve dominar essa arte.


A forja comporta um feitio cosmogônico, criador e infernal, nada menos que um aspecto iniciático, que por fim revela-se na edificação do ser. Eis a ocupação primeva da bruxa tradicional. 

domingo, 6 de novembro de 2011

Especial Dia de Finados: Ensaios sobre a Morte e os Mortos - Bruxaria Tradicional

O mês de Novembro, que se abre com o Dia de Todos os Santos e o Dia de Finados, é um período de devoção ainda mais especial aos Mortos, seja na Bruxaria Tradicional, seja em diversas outras culturas e caminhos do espírito.

Para coroar este mês, o Crux Sabbati trouxe uma série de artigos especialmente para este período.

Leia sobre a Necromancia na Bruxaria Tradicional da Sérvia, sobre o Dia de los Muertos, sobre os costumes relacionados aos mortos nos alpes orientais, conheça o Hino Órfico para a Morte e saiba mais sobre como são comemorados os Mortos no Vodou do Haiti.