Por Nicholaj de Mattos Frisvold
Do original The Bitter Master
“Nunca ceda a tentação da amargura.”
- Martin Luther King Jr.
A vida propriamente pode ser uma jornada, um rio, caos, devastação e uma confusão intolerável. Quando montamos nosso cavalo, camelo, burro ou mula e cavalgamos no mundo e buscamos fortuna. No caminho em direção a fortuna, o rio e estrada podem se transformar em correntes erráticas ou tempestades de areia que nos tiram do curso. Qualquer desvio é uma experiência nova e em cada nova experiência reside o crescimento e a rejeição. Se nos aproximamos com interesse estas estações na vida nossas escolhas nos carregam e encontraremos verdes pastos e maçãs envenenadas. Esta é a emoção do viver.
Acredito que todos nós manifestamos um complexo conjunto de virtudes planetárias fundidas e misturadas com as experiências que realizamos no mundo. Nossa alma estelar fica condicionada pelo mundo em que vivemos, e nossa alma inocente absorve e segue, reage e age. Nadamos em emoções e pensamentos – e somos constantemente arremessados à encruzilhada para fazer a boa e a má decisão. Esta é a forma em que se acumula o conhecimento. É assim que podemos conhecer a amargura como algo diferente da doçura – e nestes dois pólos a vida dança para frente e para trás – como um ventoso rio de esperança, amor, desespero e todas as formas de êxtase.
A vida é boa, mesmo quando nadamos em absinto, pois a vida nasce do amor – e o remédio é geralmente amargo – assim em lagos de absinto, há somente uma coisa a se fazer, e é declarar: “Estou pronto! Dê-me! Eu consigo tomar!” E enquanto você nada adiante, piscinas de mel surgirão como um consolo dado miraculosamente. Resolver a amargura em um espírito interessado irá liberar o mel interior e fornecer o oásis necessário para o recolhimento do Self – e seguir adiante. Esperançosamente mais forte, mais amoroso e mais consciente de quem somos.
Mas infelizmente há aqueles que tomam grandes goles do absinto, cuspindo-o enquanto amaldiçoam, bebendo-o outra vez e mais outra. Alguns vêem isso como heróico, e sim, é uma batalha heróica em seu próprio lago de amargura – este é o verdadeiro jihad, a guerra sobre seu próprio self inferior, os famintos nafs! Quem conquista o amargo inimigo interno é realmente um herói. Pior é com aqueles que deificam seu próprio absinto amargo e se tornam mestres da vida amarga. Amagura é nascida do sofrimento e mágoa. Amargura mata o amor e é o pai da raiva. Se andarmos no caminho da raiva por muito tempo, tudo será perdido – até o nosso Caminho.
Existem sabedorias e advertências nisto, porque os mestres amargos logo se transformam em mestres da gula espiritual e se posicionam e se declaram patriarcas de conselhos e ordens. Isto é feito como uma tentativa de gerar uma estrutura no absinto e a disfunção se define no sistema, trazendo a vanglória e a arrogância. É uma exaltação de amargura que se desenrola e dá luz ao Extraviador.
No budismo tradicional, o extraviador se veste como Mara, cuja forma mais popular é a da Morte. Mas os poderes de Mara podem ser encontrados em qualquer estado emocional imaturo e também nos fatores temporais que levam à morte na existência condicionada. É o obstáculo da dúvida e da tentação – a força que atrai o vil em todos, e faz com que este seja o caminho extraviado no qual projetamos nossas vidas.
Para Buddha, Mara era tão importante para a compreensão e realização de propósito quanto o mestre. Mara é o extraviador, o desafiador, o poder que te encoraja a se manter no caminho do Destino ao lhe dar opção, desvios, alternativas e seduções. Mara é a antítese de Destino, o princípio de oposição que nos mantém na trilha do destino. Mara é a fronteira e é o que acontece quando forçamos os limites. É o apego aos poderes do sofrimento no mundo.
Lemos no Mahaavagga a seguinte mensagem de Mara para Buddha:
“Estás atado por todas as armadilhas,
Por ambos, as dos devas e as dos homens
Em grande armadilha estás atado,
Recluso, não serás liberto de mim”
Mara está constantemente ativo em nossas vidas como algo que ameaça seduzir-nos ao desespero e nos atar ao sofrimento. Todo sofrimento se origina por dentro. É um estado indesejável, e se o sofrimento não for aniquilado ele alimentará o Mara interno. O Mara interno provocará ingratidão em suas crias. Ele lhe aconselhará a aqueles que sofrem a cortar a cabeça do mestre – ou pelo menos usar o mestre como bode expiatório -, colocando toda a culpa de suas próprias más decisões sobre os outros. Um mundo hostil toma forma ao redor daquele que sofre, o sofrimento se torna a realidade, e através disto o fornecimento de nutrição ao mau caminho. O mau caminho confunde a armadilha com heroísmo, e o sofredor se torna vítima de estados emocionais imaturos que buscam somente a destruição, pois a cidade da destruição é aquela que o sofredor construiu para si. O sofredor irá constantemente lançar as cinzas de sua própria amargura no mundo, demonizando seus amigos e recusando-se a ouvir a sabedoria, porque a voz da raiva fala muito mais alto – e na cidade da Ira, o rei odioso é tirano da Morte e vice-rei da hoste do sofrimento.
Vemos isso em toda parte, sofredores que tentam sobreviver num mundo hostil que resolveram construir para si. Mas a solução para acabar com sofrimento não é se mudar para a cidade da tristeza e ira, mas enxergar cada desafio como uma oportunidade de alcançar o Self e conhecer Destino. O remédio é o salto nos lagos de absinto com uma alma de mel – porque o mel nunca amargará.
Versão de Katy de Mattos Frisvold, autora do blog Espelho de Circe.



